Como o K-pop transformou os videoclipes em universos narrativos

No K-pop, um videoclipe nem sempre termina quando a música acaba. Em alguns casos, ele deixa perguntas sem resposta, apresenta personagens misteriosos e esconde referências que só fazem sentido depois de outros lançamentos. Assim, o que poderia ser apenas uma produção audiovisual para divulgar uma faixa se transforma em parte de uma história muito maior.

Essa estratégia ajudou a consolidar os chamados universos narrativos no gênero. Por meio de símbolos, teorias, pistas visuais e personagens recorrentes, grupos passaram a construir identidades que ultrapassam os limites de cada álbum. Consequentemente, acompanhar um comeback também pode significar investigar acontecimentos, conectar acontecimentos anteriores e tentar descobrir o próximo capítulo de uma narrativa.

Mais do que uma escolha estética, essa construção aproximou música, audiovisual e participação dos fãs. Afinal, quando um clipe deixa pistas, o público não precisa apenas assistir: também pode interpretar, teorizar e participar da história.

O que significa lore no K-pop?

A palavra lore é utilizada para descrever o conjunto de histórias, mitologias, personagens e acontecimentos que formam o universo ficcional de uma obra. No K-pop, o conceito aparece quando diferentes videoclipes, álbuns e materiais promocionais compartilham elementos narrativos.

Na prática, isso significa que um objeto mostrado rapidamente em um videoclipe pode reaparecer meses depois, em outro lançamento. Da mesma forma, uma cena aparentemente desconectada pode revelar um acontecimento anterior ou indicar o futuro de determinado personagem.

Essa construção também se relaciona ao conceito de storytelling transmídia. Nesse modelo, uma narrativa se desenvolve em diferentes plataformas, e cada formato acrescenta informações ao universo principal.

Assim, os videoclipes deixam de funcionar apenas como peças independentes. Eles passam a integrar uma estrutura que pode incluir teasers, trailers, fotografias conceituais, letras, histórias em quadrinhos digitais e até jogos.

EXO e BTS: os grupos que ajudaram a popularizar os universos narrativos

Embora a construção de conceitos elaborados já fizesse parte da indústria musical sul-coreana, o EXO se tornou uma das principais referências dessa estratégia.

Desde sua estreia, em 2012, o grupo da SM Entertainment foi apresentado como um conjunto de seres extraterrestres com habilidades sobrenaturais. Cada integrante possuía um poder específico, enquanto a história envolvia uma mitologia própria, com elementos como a Árvore da Vida e a luta contra forças malignas.

O videoclipe de MAMA apresentou parte dessa mitologia por meio de uma introdução narrativa, estabelecendo as bases de um universo que seria retomado em outros materiais promocionais. Posteriormente, produções como Call Me Baby continuaram explorando referências à identidade fantástica do grupo.

Já o BTS levou a construção narrativa para outra dimensão com o chamado BTS Universe (BU).

A partir da série The Most Beautiful Moment in Life (HYYH), iniciada em 2015, o grupo desenvolveu uma história sobre juventude, amizade, perdas e escolhas. Os integrantes interpretavam personagens cujas trajetórias se cruzavam em acontecimentos marcados por conflitos emocionais e elementos de repetição temporal.

O universo também ultrapassou os videoclipes. A narrativa ganhou uma expansão com o webtoon SAVE ME, além de outros materiais relacionados à história.

O resultado foi uma experiência na qual os fãs precisavam conectar diferentes lançamentos para compreender melhor os acontecimentos. Um detalhe em um clipe poderia ganhar outro significado quando comparado a uma cena anterior, incentivando interpretações e discussões coletivas.

A expansão desses universos também chamou a atenção de pesquisadores. Um estudo publicado em 2025 no Journal of Popular Narrative, por exemplo, analisou a construção narrativa do TXT e identificou temas como amadurecimento, identidade e busca por salvação em seus albums The Dream Chapter (STAR,MAGIC e ETERNITY).

TXT, ENHYPEN e aespa: diferentes maneiras de construir uma história

Com a popularização desse formato, outros grupos desenvolveram maneiras próprias de incorporar histórias aos seus lançamentos. Entretanto, nem todos utilizam a mesma abordagem: enquanto alguns apostam em narrativas fantásticas, outros trabalham com metáforas, realidades paralelas e personagens digitais.

TXT e a fantasia sobre juventude

O TOMORROW X TOGETHER (TXT) construiu seu universo a partir de temas como amizade, amadurecimento e descoberta da identidade.

A série The Dream Chapter apresentou uma narrativa que mistura fantasia e experiências da juventude. Videoclipes como Nap of a Star, Magic Island e Eternally ajudam a estabelecer conexões entre os integrantes, elementos sobrenaturais e acontecimentos que nem sempre são explicados diretamente.

Além disso, o universo foi ampliado com The Star Seekers, uma produção em formato de webtoon que acompanha personagens ligados à identidade fictícia do grupo.

ENHYPEN e o universo dos vampiros

No caso do ENHYPEN, a mitologia sobrenatural ocupa um lugar central.

Desde a estreia, em 2020, o grupo trabalha com referências a vampiros, imortalidade, transformação e pertencimento. Esses elementos aparecem em diferentes videoclipes e materiais conceituais.

A narrativa também se conecta a Dark Moon: The Blood Altar, webtoon que acompanha personagens vampiros e amplia a mitologia associada ao grupo. O webtoon também ganhou uma versão animada pela Crunchyroll

A relação entre música e quadrinhos permite explorar acontecimentos que não precisam estar necessariamente presentes nos videoclipes. Dessa maneira, cada plataforma acrescenta novas camadas à história.

aespa e a realidade digital

Já o aespa aposta em uma abordagem tecnológica.

O grupo da SM Entertainment foi apresentado com versões virtuais das integrantes, chamadas de æ, que coexistem com suas contrapartes humanas em um universo digital. A narrativa também introduziu personagens como nævis e conceitos como KWANGYA.

O videoclipe de estreia, Black Mamba, lançado em 2020, apresentou elementos dessa mitologia. Posteriormente, músicas como Next Level e Savage deram continuidade à construção desse universo.

Nesse caso, a lore não funciona apenas como uma sequência de acontecimentos. Ela também participa diretamente da identidade visual e conceitual do grupo, aproximando a música de discussões sobre inteligência artificial e realidades virtuais

ATEEZ e as pistas escondidas nos videoclipes

O ATEEZ também se tornou uma das principais referências quando o assunto é storytelling no K-pop. Desde os primeiros lançamentos, o grupo construiu uma mitologia que mistura viagens entre dimensões, realidades alternativas, sociedades autoritárias e a luta pela liberdade. Diferentemente de narrativas que apresentam personagens com histórias individuais mais independentes, o universo do ATEEZ acompanha uma jornada coletiva, na qual os integrantes enfrentam diferentes versões de si mesmos e tentam impedir que uma sociedade controladora determine o futuro das pessoas.

Outro aspecto interessante é a maneira como o ATEEZ utiliza elementos visuais para conectar diferentes períodos da narrativa. Além disso, os fãs procuram identificar quais versões dos integrantes aparecem em cada videoclipe e como as diferentes linhas temporais interferem na história principal.

A construção do universo também ultrapassa a música. Teasers, trailers, materiais conceituais e conteúdos promocionais acrescentam informações à mitologia, fazendo com que os fãs precisem observar diferentes formatos para compreender melhor os acontecimentos. Assim, cada comeback funciona como uma nova etapa de uma história em andamento, e não apenas como uma oportunidade de apresentar um álbum.

LOONA e o Loonaverse

O LOONA construiu um dos universos narrativos mais ambiciosos do K-pop com o chamado Loonaverse. Desenvolvida pela BlockBerry Creative, a mitologia começou a ganhar forma em 2016, quando o projeto de apresentação individual das integrantes passou a revelar pistas sobre um universo compartilhado. Em vez de apresentar as 12 garotas apenas como integrantes de um novo grupo, a empresa introduziu cada uma com identidade visual própria, cores, animais representativos e videoclipes que pareciam fazer parte de uma mesma história.

A narrativa é organizada em torno de três subunidades: LOONA 1/3, ODD EYE CIRCLE e yyxy. Cada uma representa uma parte diferente desse universo.

LOONA 1/3 está associada à Terra e a uma realidade mais próxima do cotidiano; ODD EYE CIRCLE explora dimensões alternativas; enquanto yyxy apresenta uma história marcada por referências à liberdade, à descoberta pessoal e à ruptura com estruturas de controle.

As três subunidades não funcionam apenas como divisões musicais: seus videoclipes apresentam personagens, símbolos e acontecimentos que podem ser interpretados como partes de uma mesma mitologia.

O grande diferencial do Loonaverse está na quantidade de informações escondidas em seus materiais audiovisuais. Uma cor, um objeto, uma posição em determinada cena ou a aparição de uma integrante em outro videoclipe podem servir como pistas para interpretações mais amplas.

Por isso, os fãs passaram anos construindo linhas do tempo, mapas de relações e teorias para explicar a cronologia dos acontecimentos. Mesmo sem uma explicação oficial para cada detalhe, a narrativa transformou a discografia do LOONA em uma experiência de investigação coletiva, na qual cada lançamento poderia modificar a maneira como o público entendia os anteriores.

Por que os fãs gostam tanto de decifrar as teorias?

Parte do sucesso dos universos narrativos está na participação que eles permitem ao público.

Em vez de simplesmente consumir uma música e partir para o próximo lançamento, os fãs encontram motivos para retornar aos videoclipes, comparar cenas e discutir interpretações. Nas redes sociais, especialmente YouTube, TikTok, Reddit e comunidades de fandom, análises detalhadas ajudam a organizar as informações e compartilhar teorias.

Esse comportamento também cria uma experiência coletiva. Uma pessoa pode perceber um símbolo escondido, outra pode encontrar uma referência em um lançamento antigo e uma terceira pode relacionar tudo a uma frase da letra.

Além disso, nem todas as teorias precisam chegar a uma conclusão definitiva. Algumas narrativas deixam acontecimentos em aberto, permitindo que diferentes interpretações coexistam.

Para as empresas, essa dinâmica também tem valor estratégico. Um universo bem desenvolvido pode manter o interesse entre os comebacks, ampliar a presença de um grupo em diferentes plataformas e gerar produtos derivados, como webtoons, animações e jogos.

No entanto, existe uma diferença entre oferecer pistas interessantes e construir uma história excessivamente complicada. Quando a compreensão de um videoclipe depende de muitos materiais externos, parte do público pode sentir dificuldade para acompanhar a narrativa.

O futuro das narrativas no K-pop

Apesar da popularidade das grandes mitologias, a indústria também apresenta sinais de mudança.

Em 2026, uma discussão sobre a evolução dos conceitos no K-pop ganhou espaço na imprensa sul-coreana. Segundo o The Korea Herald, grupos mais recentes, como RIIZE, TWS e NCT WISH, têm apostado em propostas mais simples e próximas de experiências cotidianas, em contraste com universos ficcionais elaborados.

Isso não significa que as narrativas estejam desaparecendo. Pelo contrário, elas continuam sendo uma ferramenta criativa importante, mas já não representam uma fórmula obrigatória para conquistar o público.

A tendência também demonstra que existem diferentes maneiras de criar uma identidade artística. Um grupo pode desenvolver uma mitologia que atravessa anos de lançamentos, enquanto outro pode apostar em histórias independentes, conceitos visuais marcantes ou emoções facilmente reconhecíveis.

No fim, a força dos universos narrativos está justamente na possibilidade de transformar uma música em uma experiência maior. Para alguns fãs, acompanhar um comeback significa descobrir uma nova canção. Para outros, é também voltar ao início da história, procurar uma pista esquecida e tentar descobrir o que os artistas estão preparando para o próximo capítulo.