Uma canção lançada nos anos 1980 pode parecer uma descoberta recente para quem a encontra em uma playlist do YouTube ou em um vídeo viral no TikTok. Foi assim que o city pop, vertente da música popular japonesa associada à vida urbana e à prosperidade econômica do Japão daquela década, conquistou uma nova geração de ouvintes dentro e fora do país.
O movimento ganhou projeção internacional na segunda metade dos anos 2010, quando gravações antigas começaram a circular entre usuários que sequer eram nascidos quando aquelas músicas chegaram ao mercado. Entre os principais símbolos dessa redescoberta está Plastic Love, de Mariya Takeuchi, que se tornou um fenômeno na internet décadas depois de seu lançamento original.
A trajetória do gênero mostra como as plataformas digitais podem transformar músicas esquecidas pelo grande público em referências culturais para uma geração inteiramente nova. Mais do que uma tendência passageira, a retomada do city pop também reacendeu o interesse por artistas, álbuns e pela estética de uma época que muitos fãs conhecem apenas por fotografias, videoclipes e ilustrações retrô.
O que é city pop?
O city pop surgiu no Japão durante a segunda metade dos anos 1970 e ganhou força na década seguinte. Embora não exista uma definição musical única para o gênero, sua sonoridade combina elementos de pop, funk, disco, jazz, soul e R&B, frequentemente acompanhados por arranjos sofisticados e uma produção bastante elaborada.
O estilo se desenvolveu em um período de transformações econômicas e sociais no Japão. Durante os anos 1980, o crescimento do consumo e a expansão da cultura urbana influenciaram a música, a moda e o entretenimento. Nesse contexto, o city pop passou a evocar uma imagem moderna e cosmopolita do país, com referências a carros, viagens, vida noturna, romances e paisagens iluminadas por neon.
Entre os artistas associados ao gênero estão Tatsuro Yamashita, Mariya Takeuchi, Taeko Ohnuki, Anri e Toshiki Kadomatsu. Suas músicas ajudaram a estabelecer uma identidade sonora que combinava influências internacionais com a produção musical japonesa.
O city pop, entretanto, não desapareceu completamente após os anos 1980. O gênero perdeu espaço diante de outras tendências musicais, mas gravações antigas continuaram circulando entre colecionadores, DJs e admiradores da música japonesa. Décadas depois, a internet ampliaria esse interesse para uma audiência internacional.
Plastic Love: a música que ajudou a popularizar o gênero
Poucas canções representam tão bem a redescoberta do city pop quanto Plastic Love, de Mariya Takeuchi.
Lançada originalmente no álbum Variety, de 1984, a faixa combina baixo marcante, sintetizadores, guitarras e uma atmosfera dançante. A letra, por sua vez, apresenta uma narradora que tenta lidar com a solidão e as desilusões amorosas, criando um contraste entre a melancolia da história e a leveza da composição.
Na época, a música não alcançou o mesmo reconhecimento internacional que conquistaria anos depois. A mudança começou a ganhar força em 2017, quando uma publicação não oficial da canção no YouTube passou a circular entre comunidades de música e usuários interessados em sonoridades retrô.
A recomendação algorítmica da plataforma ajudou a apresentar a faixa a pessoas que nunca haviam ouvido falar de Takeuchi. A imagem utilizada no vídeo, a atmosfera nostálgica e o arranjo envolvente contribuíram para transformar a gravação em uma porta de entrada para o city pop.
O sucesso foi tão expressivo que a gravadora passou a disponibilizar versões oficiais do videoclipe nos anos seguintes. A redescoberta também levou novos ouvintes a explorar o catálogo da cantora e de outros artistas japoneses da mesma época.
A história de Plastic Love se tornou um exemplo de como uma música pode ganhar um novo significado quando encontra um público diferente daquele para o qual foi originalmente produzida.
Do YouTube ao TikTok: como a internet apresentou a city pop aos jovens
A popularização do city pop está diretamente ligada às mudanças na forma como as pessoas descobrem música. Antes, conhecer artistas japoneses de décadas anteriores dependia, em muitos casos, do acesso a discos importados, lojas especializadas ou comunidades dedicadas à cultura do país.
Com o YouTube, as recomendações automáticas passaram a conectar gravações antigas a ouvintes de diferentes partes do mundo. Uma pessoa interessada em música eletrônica, por exemplo, poderia encontrar uma faixa de city pop por meio de um remix e, depois, chegar à versão original.
O TikTok e outras redes sociais ampliaram esse processo. Trechos de canções passaram a acompanhar vídeos, montagens, ilustrações e conteúdos que recuperam a estética visual dos anos 1980. Assim, músicas originalmente lançadas em vinil ou fitas cassete começaram a circular em ambientes digitais frequentados por jovens.
A popularidade de Mayonaka no Door (Stay with Me), de Miki Matsubara, é outro exemplo dessa trajetória. Lançada em 1979, a canção ganhou uma nova onda de atenção internacional décadas depois, impulsionada por covers, vídeos virais e plataformas de streaming.
Além disso, a circulação digital facilitou a formação de comunidades dedicadas ao gênero. Fãs compartilham recomendações, discutem artistas, procuram edições em vinil e publicam imagens que ajudam a construir uma identidade visual em torno da city pop.
Um estudo publicado em 2025 na revista acadêmica Continuum: Journal of Media & Cultural Studies investigou justamente a relação entre o city pop e a geração Z nos Estados Unidos. A pesquisa destacou a importância das redes sociais e dos serviços de streaming na descoberta do gênero e na maneira como os jovens atribuem significado a essas músicas.
A nostalgia de uma época que muitos fãs não viveram
Existe uma particularidade na relação entre a geração atual e o city pop: muitos de seus novos ouvintes não têm lembranças pessoais do Japão dos anos 1980.
Ainda assim, as músicas despertam uma sensação de familiaridade. Parte desse efeito vem da combinação entre a sonoridade das gravações e as imagens que acompanham sua circulação na internet.
Ilustrações de cidades iluminadas, praias ao entardecer, carros antigos e ruas movimentadas aparecem frequentemente associadas ao gênero. Esses elementos ajudam a construir uma representação idealizada de uma época distante, na qual a música funciona como trilha sonora para um cenário que os fãs podem imaginar, mesmo sem tê-lo vivenciado.
Essa relação não depende necessariamente de uma experiência real de nostalgia. Para parte do público, a atração está justamente na possibilidade de descobrir um passado desconhecido e atribuir a ele novos significados.
O city pop também oferece uma combinação sonora que continua funcionando fora de seu contexto original. Os arranjos detalhados, as linhas de baixo, os sintetizadores e as melodias sofisticadas podem atrair ouvintes interessados em diferentes estilos, do funk à música eletrônica.
Por isso, a popularidade do gênero não se resume à vontade de reproduzir uma estética retrô. Ela também revela como gravações antigas podem ser apreciadas por suas próprias qualidades musicais, independentemente da época em que foram lançadas.
Cinco músicas para começar a ouvir city pop
Para quem deseja conhecer o gênero além dos vídeos virais, algumas canções ajudam a explorar diferentes artistas e características da música japonesa dos anos 1970 e 1980.
1. Plastic Love — Mariya Takeuchi
Uma das principais portas de entrada para o city pop contemporânea. A faixa combina uma produção dançante com uma história de desilusão amorosa.
2. Mayonaka no Door (Stay with Me) — Miki Matsubara
Lançada em 1979, a música se tornou outro grande símbolo da redescoberta internacional do gênero. Sua interpretação marcante e seu arranjo ajudam a explicar a longevidade da gravação.
3. Ride on Time — Tatsuro Yamashita
A canção representa a sonoridade sofisticada que ajudou a consolidar o city pop, com uma produção expansiva e influências de soul e funk.
4. Remember Summer Days — Anri
Uma faixa que combina melodias envolventes e uma atmosfera ensolarada, próxima das imagens de verão frequentemente associadas à estética do gênero.
5. 4:00 A.M. — Taeko Ohnuki
Para quem prefere uma sonoridade mais atmosférica, a música oferece uma abordagem distinta, com arranjos delicados e uma sensação contemplativa.
Essas gravações também mostram que o city pop não se limita a uma fórmula única. O gênero reúne diferentes interpretações da música popular japonesa, conectadas por influências musicais compartilhadas e pela representação da vida moderna.
O legado da city pop na música contemporânea
A redescoberta do city pop demonstra que a vida comercial de uma música não termina necessariamente quando ela deixa de ocupar as paradas. Com o passar do tempo, novas tecnologias e hábitos de consumo podem aproximar gravações antigas de públicos que nunca tiveram contato com elas durante seu lançamento.
O fenômeno também reforça a importância da circulação internacional da música japonesa. Embora o city pop tenha surgido em um contexto cultural específico, suas influências musicais e suas melodias permitiram que ela encontrasse ouvintes em diferentes países.
Ao mesmo tempo, a popularidade do gênero trouxe novos olhares para artistas que já possuíam trajetórias consolidadas no Japão. Para muitos fãs, descobrir Plastic Love ou Stay with Me é apenas o primeiro passo para explorar outros discos, conhecer diferentes cantores e compreender melhor a história da música popular japonesa.
Quatro décadas depois de seus maiores sucessos, o city pop continua encontrando espaço nas playlists e comunidades digitais. O que começou como uma sonoridade associada à vida urbana japonesa dos anos 1980 ganhou uma segunda vida na internet, provando que uma música pode atravessar gerações e conquistar novos públicos muito além de seu tempo original.



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