Descubra como mulheres moldaram o anime desde o Era Shōwa 24 até hoje, influenciando histórias, personagens e a cultura otaku.

As Mulheres que Construíram o Anime: do Showa 24 ao Fandom de JJK

Pergunta rápida: quem inventou o anime? Osamu Tezuka, todo mundo fala. E tá certo, ele inventou muita coisa mesmo. Mas a história costuma parar aí, e aí fica faltando um pedaço bem grande.

Tem um grupo de mulheres que nos anos 70 fez o mangá parar de ser o que era. Além disso, uma dessas mulheres vendeu mais de 200 milhões de volumes, mais do que qualquer outra pessoa na história do formato. Tem fandoms femininos que hoje colocam dinheiro nos maiores animes em exibição e raramente aparecem quando a indústria faz as contas.

A gente resolveu contar essa parte da história.

O Grupo do Ano 24 e a Virada dos Anos 70

Antes dos anos 70, o shoujo japonês era basicamente romance leve com final feliz. O mercado era tocado por homens, o público era de meninas, e o que produziam pras meninas precisava ser simples e arrumadinho. Sem problema, sem ambiguidade, sem coisa que pesasse.

Aí aparece o Grupo do Ano 24, que o nome vem de 1949 (Showa 24), o ano que a maioria das integrantes nasceu. Moto Hagio, Riyoko Ikeda, Keiko Takemiya, Yumiko Oshima. E o que elas fizeram foi pegar esse espaço criado pra contar historinha bonitinha e criar ficção científica, drama histórico, tragédia de verdade, personagens que não se encaixam em lugar nenhum.

O site oficial revelou que o novo filme anime baseado no mangá The Rose of Versailles (Rosa de Versalhes) estreará no início de 2025.
Imagem / Divulgação

Rosa de Versalhes saiu em 1972. Oscar, a protagonista, é uma mulher que cresceu como homem pra servir à guarda real na França da Revolução. A história não resolve isso, não explica, não arruma. Deixa Oscar ser quem ela é e usa a Revolução Francesa como pano de fundo pra falar sobre identidade e sobre o que acontece quando tudo em volta desmorona. Em 1972. Num mangá pra meninas.

Moto Hagio, por sua vez, fazia coisa parecida. O Coração de Thomas (Thomas no Shinzō – 1974) já explorava relações entre personagens masculinos com uma intensidade emocional que o mercado todo ignorava, e fez isso anos antes de BL existir como categoria. Ela só queria escrever sobre pessoas complicadas de verdade.

Rumiko Takahashi e as Três Décadas que Ela Dominou o Mercado

Turma do Barulho (Urusei Yatsura), Ranma ½, InuYasha. Três décadas seguidas, três franquias enormes, cada uma em sua época virando fenômeno. Rumiko Takahashi é, portanto, a mangaká com mais cópias vendidas da história, mais de 200 milhões de volumes no mundo inteiro.

E ainda hoje tem gente no ocidente que descobre que a criadora de InuYasha é mulher e fica surpresa.

Isso diz muito sobre como a gente constrói a ideia de quem faz o quê nessa indústria.

Sailor Moon e o Que Aconteceu nos Anos 90

Descubra como mulheres moldaram o anime desde o Era Shōwa 24 até hoje, influenciando histórias, personagens e a cultura otaku.

Em 1991, Naoko Takeuchi lançou Sailor Moon. Na descrição parece simples: garotas magicas, guerreiras em uniforme escolar. Mas o que o anime fez foi diferente do que o gênero tinha feito até então.

As Sailor Senshi perdiam. Tomavam também decisões difíceis. Usagi era impulsiva e às vezes atrapalhada, e isso não era um defeito que ela precisava superar. Era ela. O anime passou em 46 países. Se você cresceu nos anos 90 e pegou no SBT, você sabe o tamanho disso sem precisar de número.

Sailor Moon provou que contar história do ponto de vista de mulheres não era coisa de nicho. Naquele momento era o maior produto de exportação cultural que o Japão tinha.

O Fandom que Sustenta Tudo

Abre qualquer rede social e procura Haikyuu!!. Tem fanart do Kageyama que parece pintura, fanfic com mais capítulos do que o mangá original, análise de dinâmica de personagem que vai mais fundo do que muita crítica profissional. O anime é sobre vôlei masculino. A maioria de quem produz esse conteúdo, porém, não é masculina.

O JJK, aliás, é igual. Demon Slayer também. Esse padrão não é novo, afinal. O fandom feminino de shounen existe desde pelo menos Cavaleiros do Zodíaco, só que por muito tempo a indústria simplesmente não coletava esses dados com cuidado. Era mais fácil continuar achando que “shounen é pra menino”.

Descubra como mulheres moldaram o anime desde o Era Shōwa 24 até hoje, influenciando histórias, personagens e a cultura otaku.

Por conta disso, o impacto vai além de criar conteúdo de graça. Fã mulher compra merchandise, compra volume de mangá, compra ingresso de evento, pressiona por nova temporada, organiza fila em convenção às 6 da manhã. O AO3, maior plataforma de fanfic do mundo, surgiu porque a plataforma precisava existir e ninguém ia fazer por elas.

É também esse fandom que constrói a wiki, que modera o servidor do Discord, que apresenta o anime pra amiga que nunca tinha assistido. Essa infraestrutura toda raramente aparece quando a indústria faz as contas. Mas sem ela, metade dos fandoms que existem hoje teriam durado uma temporada e sumido.

Quem Está Fazendo Isso Agora

Descubra como mulheres moldaram o anime desde o Era Shōwa 24 até hoje, influenciando histórias, personagens e a cultura otaku.

Hiromu Arakawa criou Fullmetal Alchemist em 2001. FMA: Brotherhood terminou como um dos animes mais bem avaliados da história, o tipo de obra que aparece em qualquer lista de melhor anime de todos os tempos. Tem muita gente que descobriu só recentemente que a autora é mulher. De novo, essa surpresa não é inocente.

Natsuki Takaya escreveu Fruits Basket de 1998 a 2006 e criou uma das histórias mais honestas sobre trauma e família que o mangá produziu. Ainda assim, o remake de 2019 confirmou que não tinha envelhecido nada. Quem chegou pelo remake e chorou no final sabe do que a gente tá falando.

Fruits Basket

Akiko Higashimura faz Princess Jellyfish e Tokyo Tarareba Girls, duas histórias sobre mulheres adultas com vida adulta de verdade, num mercado que ainda tende a tratar protagonista feminina como se ela precisasse ter no máximo 17 anos e nenhum problema sério.

E Ryoko Kui criou Dungeon Meshi em 2014. Em 2024 o Trigger animou, a internet toda entrou em comoção, e a série virou fenômeno. Kui construiu um mundo com regras próprias, humor inteligente, personagens que crescem de verdade, e uma reflexão sobre o que significa sobreviver que vai muito além da aventura. Um dos melhores trabalhos de criação de mundo dos últimos anos. De uma autora que a maioria das pessoas mal conhecia pelo nome antes do anime sair.

Mas a lista é bem maior do que qualquer ranking costuma mostrar.

O Que Ainda Não Mudou

Tem um dado que resume bem onde a indústria ainda tá: no anime japonês, diretoras mulheres são exceção. Sayo Yamamoto, que dirigiu Yuri on Ice e Michiko, e Hatchin, virou referência exatamente por ser rara. Na maioria dos grandes estúdios, portanto, direção ainda é cargo ocupado quase que exclusivamente por homens.

Produtor Hideo Katsumata confirma que YURI!!! on ICE the Movie: Ice Adolescence foi cancelado por motivos criativos envolvendo estúdio MAPPA.
Reprodução / MAPPA

E isso afeta mais do que os créditos. Afeta o que os estúdios produzem, como produzem, quem decide o que vira animação e quem fica só no mangá. Obras escritas por mulheres chegam ao mercado com orçamentos menores, campanhas de divulgação menores, e uma pressão extra pra provar que têm audiência antes de receber investimento de verdade.

Tem também o problema da categorização. Shounen é vendido como anime pra todo mundo. Shoujo ainda carrega o rótulo de coisa de menina, como se a perspectiva feminina fosse nicho e a masculina fosse o padrão universal. Isso define o que vira capa de revista, o que aparece nas listas de referência, o que os críticos tratam como obra séria e o que eles descartam como entretenimento leve.

E no fandom mesmo: assédio online é real, acontece, e costuma mirar especialmente em quem tem presença grande em comunidades, seja cosplayer, fanartista ou criadora de conteúdo. Aliás, não é abstrato. É um custo que recai sobre pessoas reais que constroem cultura de graça.

O progresso existe. Mas parar na superfície e fingir que o resto já foi resolvido seria desonesto.

Por Que Isso Importa pra Gente

O GQCA existe desde 2012 porque a fundadora queria escrever sobre anime do jeito que ela queria. Não pra preencher lacuna. Não pra representar nada. Somente porque amavam e queriam falar sobre isso.

Isso é a mesma coisa que Riyoko Ikeda e Moto Hagio estavam fazendo nos anos 70. Não chegaram, portanto, como convidadas. Estavam lá construindo tudo desde o começo.